11 de abril de 2010 | N° 16302AlertaVoltar para a edição de hoje
ARTIGOS
Os rios do Rio, por Flávio Tavares*
Vivi a tragédia do Rio de Janeiro ao volante do meu carro na noite em que tudo começou, sob chuva intensa e alagamentos, no trânsito atormentado pelas encostas dos morros a deslizarem pelas ruas. Voltava do aeroporto internacional do Galeão, em direção a Ipanema, com um casal vindo da Europa. O trajeto, normalmente de 30 minutos, transformou-se em duas horas de pavor em que eu fugia da catástrofe sem lamúrias para não afligir ainda mais os recém-chegados. Atravessamos os seis quilômetros do imenso túnel Rebouças minutos antes de que as árvores arrancadas das ladeiras, mais os veículos arrastados pela correnteza, fechassem as saídas, aprisionando centenas de automóveis em meio ao monóxido de carbono que a umidade tornava ainda mais irrespirável.
Literalmente, vivi o dilúvio. Exausto, deitei-me mas não dormi: as imagens de caminhões, ônibus e carros apertando-me na via expressa da Linha Vermelha e buzinando em busca de saída povoavam a insônia. Só nos dias seguintes, porém, fui entender a dimensão trágica de tudo. Eu e meus amigos éramos sobreviventes!
*
No Estado do Rio de Janeiro, há mais de 200 mortos, lembrando a fúria do terremoto no Chile. Em Niterói, na outra margem da Baía de Guanabara, há ainda cerca de 300 “desaparecidos”. Lá, a catástrofe foi mais brutal, apesar de menos divulgada, e morros inteiros desabaram em lama. Não é só essa contabilidade tétrica, porém, que define a tragédia. O desesperador é que os responsáveis pela vida em sociedade – administradores públicos e grandes empresários de obras urbanas – sejam incapazes de aprender com o dia de ontem. Já não se exige prever o futuro, mas que, pelo menos, saibam do presente.
Duas tragédias recentes – em 2008 os deslizamentos em Santa Catarina, depois os de Angra dos Reis, no Estado do Rio – não serviram sequer para esboçar uma política concreta de preservação do solo urbano e suburbano. Em vez de resguardar o que ainda resta de natureza verde na cidade e proteger cursos d’água, transformam o cimento em rei absoluto, destruindo bosques ou “pracinhas” para edificar torres de moradia, onde as crianças jamais conhecerão um punhado de terra nem ouvirão gorjear um pássaro.
Em Santa Catarina, os deputados reduziram os espaços mínimos de “mata ciliar” junto a rios e arroios, ampliando o desmatamento nessas áreas. Em síntese: desaprenderam com a própria tragédia.
*
O que fizeram os governantes do Rio de Janeiro com os bilionários “royalties” do petróleo extraído do fundo do mar? Gastaram mais na propaganda (e outras coisitas mais...) para obter a sede das Olimpíadas do que em prevenir catástrofes. Nem perceberam a advertência de que as chuvas crescerão sobre a cidade do Rio devido às mudanças provocadas pelo ser humano no clima do planeta.
Nosso inimigo não é a chuva, mesmo as intensas. Inimigos são nossos hábitos de desprezo à natureza.
Meses atrás, nas enchentes e deslizamentos no Rio Grande do Sul, as águas destruíram a ponte de Agudo. De pouco nos valeu a tragédia. Tudo se resumiu a assistir os “flagelados pela enchente” ou melhorar caminhos alternativos enquanto a ponte não é refeita. Não se esboçaram políticas conjuntas entre a administração pública e as comunidades para que os cidadãos sejam também responsáveis pela preservação ambiental.
Sim, pois essas tragédias têm um único nascedouro: o desdém pelo meio ambiente. Aqui ou nos rios do Rio, sede olímpica de 2016.
*Jornalista e escritor
Por Zilmar
domingo, 11 de abril de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário